Educação Popular e Sociedade

Porcurando um texto para inaugurar meus posts (acertar formatação, cor, fonte…), acabei encontrando este que escrevi no ano passado. Trata-se de um breve comentário (provocativo) sobre a questão da educação popular… Boa leitura!

Educação Popular e Sociedade

Jeferson Gonzalez

          É comum ouvirmos que a educação é o fator por excelência de desenvolvimento social e individual. Uma grande emissora de televisão até criou um slogan: “Educação é Tudo!”. Assim, somos bombardeados diuturnamente com a idéia de que a educação é a solução para todas as mazelas sociais. Por outro lado, as manchetes não param de denunciar a situação precária das escolas destinadas às camadas populares: prédios danificados; falta de materiais e recursos didáticos; violência contra alunos e professores; enfim, um quadro que se assemelha mais aos antigos manicômios do que a ambientes de ensino e aprendizagem. Com isso, algo aparentemente paradoxal nos salta aos olhos: o quê é considerado como a panacéia milagrosa por um lado, por outro é largado às traças. Dissemos “aparentemente paradoxal”, pois um olhar mais atento pode nos revelar outros caminhos para a compreensão dessa questão…

          Partimos do entendimento de que, enquanto campo social que visa à formação dos seres humanos, a educação apresenta-se como palco de grandes embates ideológicos. Na sociedade em que vivemos, fundada sob o modo de produção capitalista, dividida em classes sociais com interesses opostos, a educação serve aos interesses das classes dominantes, assim como a ideologia dominante numa sociedade é a ideologia da classe dominante. Ao organizar-se a educação sob o ponto de vista das classes dominantes, às camadas populares é oferecido o mínimo possível para que elas continuem reproduzindo o capital, ou seja, o conhecimento (força produtiva) acumulado histórica e culturalmente pela humanidade é apropriado (privatizado) em sua totalidade e complexidade pela classe dominante e negado (ou oferecido parcialmente) às camadas populares. Desse modo, compreendemos que a educação não está à margem da estrutura social, mas é historicamente determinada pela forma como é organizada a sociedade, o que nos leva à conclusão de que qualquer pretensão de mudança na formação dos seres humanos, passa necessariamente por transformações radicais na estrutura social. No entanto, isso não pode justificar o imobilismo: “esperemos a revolução da sociedade e conseqüentemente a educação também se transformará”. Pelo contrário, devemos ter em mente que a luta por uma educação que socialize os conteúdos historicamente acumulados é também a luta por uma sociedade justa e igualitária, que não se realizará nos marcos da sociedade atual.

          É nesse sentido que devemos pensar a organização da educação sob o ponto de vista das camadas populares, num processo de construção da educação popular, na qual o adjetivo popular indique para além de uma educação “para o povo”, ou seja, indique uma educação comprometida com as camadas populares da sociedade. Pois, dentro de um conceito restrito de “educação para o povo”, a educação popular pauta-se na lógica de oferecer o mínimo às camadas populares, um ensino que prepara somente para o ingresso no mercado de trabalho, oferecendo uma técnica que se diz neutra, preparando o “educando” para produzir mercadorias das quais ele não irá se apropriar.

          Podemos dizer, então, que a educação popular é aquela que contém um projeto político de emancipação das camadas populares; que não oferece somente o mínimo (educação pobre para pobres) e que também não visa somente a adaptação ou simplesmente a formação para cidadania, genérica e abstrata. Educação popular, assim, deve estar comprometida com a socialização das produções históricas e culturais da humanidade, dentro de um projeto de rompimento radical das estruturas sociais, tendo em vista a completa emancipação humana.

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Sobre jefersongonzalez

Pedagogo (FFCLRP/USP) e Mestre em Educação (FE/UNICAMP). Professor na educação básica e no ensino superior. E-mail: jefersonag@yahoo.com.br.
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Uma resposta para Educação Popular e Sociedade

  1. Um bom texto,eu ás vezes me pergunto porque a educoçãono Brasil não consegue se alavancar,ou seja melhorar,falta e dinheiro não é.Então eu me lembro que os poderosos não querem um povo que questione,que lute verdadeiramente pelos seus direito e sim um povo que produza,produza e produza!

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